A recessão económica que atacou com ferocidade os níveis de desemprego jovem no sul da Europa, à qual Portugal não ficou imune, acabam por incitar discursos motivadores que procuram abrir a cortina de desespero através de perspetivas alternativas, muitas vezes baseadas em formas de pensar o emprego ou o lucro de uma maneira menos convencional. A procura de soluções criativas quando os modelos vigentes não funcionam é natural.

O que acontece quando o cenário social não parece seguir as pegadas que seguiram as gerações anteriores, o resultado é uma geração perdida. O mundo como o conhecíamos até agora parece não estar a funcionar. Subitamente somos engenheiros de um sistema que não compreendemos completamente, médicos à procura de uma cura que nunca ninguém nos ensinou a curar porque nem sequer sabíamos que existia.

É quando surgem aquilo que designarei por "gurus do pensamento positivo". Nada de errado em promover ideias inspiradoras e motivacionais. Aliás, é certo que a confiança e o pensamento positivo são fatores de extrema relevância quando se tem ambições e se quer criar algo mesmo que essa criação implique dificuldades. A crença em nós mesmos e nas nossas ideias é o que nos permite psicologicamente persistir perante os mais diversos obstáculos.

Não obstante, pode dizer-se que o trabalho de fazer os outros trabalharem parece cair num ciclo vicioso sem finalidade aparente. Os profissionais da motivação que nos ensinam a sermos otimistas em relação ao nosso futuro profissional tornaram-se... profissionais de nos fazer acreditar no futuro profissional. Soa confuso. Parece que o empreendorismo está na moda e nenhuma moda faz bem a ninguém. Quando dizemos que algo está na moda queremos dizer que é aquilo que toda a gente faz, na maior parte dos casos por imitação e sem grande consciência.
Se queremos ser diferentes ao modelo vigente para encontrar alternativas, temos então que fugir da moda.
Enquanto o empreendedorismo estiver na moda, parece-me que a verdadeira forma de o ser é ficar quietinho no quarto ou no emprego e plantar uns vegetais na varanda (para quem se quiser aventurar no mundo da plantação: aconselho que comecem com tomates, é preciso perder um tempinho a regar os pequenos mas não me faltou salada este verão. É um fruto excelente para plantar em varandas, sim porque tomate é fruto, não é vegetal).
Pensem nisto: Quando todos tiverem a sua start up, empreendedor vai ser o gajo que não tem start up!
O que significa que aquele gajo que está neste momento a comer pipocas enquanto assiste um filme depois do trabalho é um visionário que está astutamente à espera do seu momento de gloria!

Mas em grande parte, e como tudo que é moda parece que funciona como um esquema em pirâmide.
"Ora bem eu agora... que sei muito de empreendedorismos vou fazer uma start up de dar palestras para ensinar empreendedorismo, a quem? a pessoas que possivelmente vão ser bem sucedidas novamente divulgando o empreendedorismo.."

Com um ou outro formato, as talks sobre empreendedorismo são sempre o mesmo.
Ouvir a primeira é útil, se não tiverem boa memória vale a pena ouvir uma segunda, para cimentar a matéria.

Depois há aquela coisa irritante do sujeito que é empreendedor quando fala parece que nos vem esfregar na cara que nós estamos onde estamos por não sermos empreendedores o suficiente quando ele na realidade teve a brilhante ideia de empreender dizendo aos outros como se empreende. Quantas empresas de sucesso tens tu, afinal, caro colega?

Esta onda ultra-motivacional parece às vezes cair no ridículo. Empresas que tentam expandir o seu negócio com o modelo yves rocher com o apadrinhamento do Donald Trump, dizem que vendem produtos mas que se ganha mais mesmo é quando se angariam mais pessoas que a custo zero possam vender mais produtos. Há aqui uma forma neo-liberal de lidar com a situação que conduz as pessoas a acreditar em lamborghinis alugados em frente aos hotéis de 5 estrelas onde o evento decorre e o dress-code é exigente porque há uma ideia de riqueza e classe alta a transmitir a um monte de gente que não vai estar a ganhar por ano, aquilo que ganha por mês uma gaspeadeira.

E depois vem alguém e diz: "Esquema de pirâmide, mas qual esquema de pirâmide? E vendo bem isto da esquema de pirâmide até não tem nada de mal...".

Ser empreendedor não significa que precisemos nem de andar pelo país a dar palestras demonstrando que o nosso trabalho é dizer aos outros para irem trabalhar, nem pertencer a esquemas de pirâmide que nos dão uma ilusão de sermos muito ricos quando é uma profunda ilusão nociva para mentes mais desprevenidas e sem o meu sentido de cinismo.

Por exemplo, quando tive o meu primeiro computador tinha dez anos, uma vizinha amiga tinha uma impressora, que me deixava usar, um amigo da família pintor surrealista, ia fazer uma exposição. Na minha loucura disse-lhe "Eu tenho uma empresa que criei com uns vizinhos de nome Saturano, fazemos-te os cartazes a um preço mais barato que a gráfica . O homem ainda devia ser mais maluco do que eu para aceitar como valida esta proposta, vinda de um puto com 10 anos e 27 quilos. Basicamente, depois de algumas peripécias para arranjar um scanner e forma de imprimir folhas A3 numa impressora A4 (não posso revelar o segredo, é factor diferenciador deste negocio, lol). Lá estava o primeiro trabalho da Saturano, empresa caseira, com um belo logótipo carinhosamente criado no MS Paint.

Isto é um exemplo de empreendedorismo. Não passa por talks, não passa por prometer a ninguém o paraíso. É simplesmente a criatividade e dinamismo aplicados a uma forma de produção inteligente que reduz custos e se torna competitiva.

Resumindo, não gosto de ser pessimista, mas se querem fazer alguma coisa simplesmente façam, tentem, analisem resultados. Dificilmente se vão tornar no Donald Trump mais certamente vão conseguir comprar um Iphone.

Neste momento vou arrancar com um projecto novo que é: apagar luz, deitar-me no quentinho e esperar que o senhor sono chegue. Boa noite, e novamente, tentem sempre encontrar um lado positivo nestas coisas todas.